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BEM-ESTAR & ESTILO DE VIDA

Por que comer rápido faz com que se coma mais? 

Esse hábito engana o cérebro e faz o corpo ultrapassar o ponto de saciedade antes que perceba que já está satisfeito

Dra. Juliana Soares

Dra. Juliana Soares

5min • 23 de dez. de 2025

Homem jovem come sanduíche em pé representando o ato de comer rápido

Comer rápido faz o corpo ultrapassar o ponto de saciedade antes que o cérebro perceba que já está satisfeito | Foto: Freepik

Em um mundo acelerado, o tempo destinado às refeições se tornou cada vez menor. Comer rápido virou um hábito comum, mas o corpo não foi feito para isso. Quando o alimento é ingerido depressa, o cérebro não consegue acompanhar o ritmo, e os mecanismos que controlam a fome e a saciedade se desorganizam.

O resultado é que quem come rápido tende a comer mais e nem percebe. A refeição termina antes que o organismo registre que já recebeu energia suficiente. Esse descompasso entre o estômago e o cérebro leva ao consumo calórico excessivo, prejudica a digestão e, a longo prazo, favorece o ganho de peso e a obesidade.

O que acontece no corpo ao comer rápido

A saciedade depende de um diálogo constante entre o sistema digestivo e o cérebro. Assim que começamos a comer, sensores no estômago e no intestino detectam o volume e o tipo de alimento ingerido, liberando hormônios que reduzem o apetite, como o GLP-1, a colecistocinina e o peptídeo YY.

Esse processo, no entanto, leva tempo para acontecer. O cérebro precisa de cerca de 20 minutos para processar essas informações e “avisar” que já é hora de parar. Quando a refeição é apressada, o corpo ainda está no início dessa comunicação. A pessoa termina o prato, sente que ainda há espaço e acaba comendo mais.

Além disso, quem come rápido costuma mastigar pouco. A mastigação é o primeiro passo da digestão: ela estimula a liberação de enzimas digestivas e hormônios relacionados à saciedade. Quanto menos se mastiga, mais difícil é para o corpo perceber que está satisfeito e mais fácil é ultrapassar o limite.

Comer rápido altera hormônios e favorece o apetite

Comer depressa não é apenas uma questão de comportamento, mas também uma alteração hormonal importante. Estudos mostram que esse hábito reduz a produção dos hormônios que sinalizam saciedade e aumenta a liberação de hormônios que estimulam o apetite, como a grelina.

Na prática, isso significa que quem come rápido não apenas consome mais comida, como também sente fome mais cedo na refeição seguinte. Forma-se um ciclo em que refeições curtas e apressadas mantêm o corpo em constante busca por energia, mesmo quando ela já foi ingerida.

Outro ponto relevante é o tipo de alimento. Produtos ultraprocessados, ricos em calorias e de textura macia, são mais fáceis de engolir rapidamente e, portanto, mais propensos ao consumo excessivo. Já alimentos ricos em fibras e com textura mais firme exigem mastigação prolongada, o que naturalmente desacelera a refeição.

Impactos na digestão e desconfortos frequentes

Comer rápido afeta diretamente o sistema digestivo. O estômago recebe grandes volumes de alimento em pouco tempo, aumentando a distensão abdominal e favorecendo sintomas como azia, refluxo, gases e sensação de empachamento.

Quando o alimento chega pouco mastigado ao estômago, o processo digestivo se torna menos eficiente. O corpo precisa produzir mais ácido e enzimas para quebrar os alimentos, e o esvaziamento gástrico ocorre de forma mais rápida, favorecendo picos de glicose e o retorno precoce da fome.

Há ainda um fator mecânico importante: ao comer rápido, engole-se mais ar, o que aumenta o inchaço abdominal e contribui para o desconforto após as refeições. Isso explica por que muitas pessoas sentem peso no estômago mesmo após refeições aparentemente normais, mas feitas às pressas.

Comer rápido e o risco de obesidade

A associação entre comer rápido e ganho de peso é bem documentada. Estudos observacionais e de longo prazo indicam que pessoas com esse hábito apresentam maior risco de obesidade, síndrome metabólica e resistência à insulina.

O mecanismo é relativamente simples: ao ingerir mais calorias do que o corpo necessita, o excesso é armazenado como gordura, especialmente na região abdominal. Além disso, os picos de glicose e insulina provocados pela ingestão acelerada de alimentos favorecem alterações metabólicas que aumentam o risco de diabetes tipo 2.

Com o tempo, o organismo passa a regular mal os hormônios da fome e da saciedade, fazendo com que a pessoa sinta vontade de comer com mais frequência, mesmo sem necessidade fisiológica. Esse desequilíbrio pode se instalar de forma silenciosa e só é revertido com mudanças conscientes no comportamento alimentar.

Comer devagar ajuda o corpo a se equilibrar

Desacelerar as refeições é uma das estratégias mais simples e eficazes para melhorar o controle do apetite e prevenir o ganho de peso. Quando se come devagar, o corpo tem tempo para liberar adequadamente os hormônios da saciedade e ajustar a resposta do sistema digestivo.

Esse ritmo também favorece a digestão, melhora a absorção de nutrientes e reduz a sobrecarga do estômago. Muitas pessoas relatam maior satisfação após as refeições, mesmo consumindo porções menores.

Algumas atitudes práticas podem ajudar:

  • Mastigar bem cada alimento antes de engolir;
  • Colocar o garfo ou talheres sobre a mesa entre as garfadas;
  • Evitar celular, televisão ou outras distrações durante a refeição;
  • Reservar ao menos 20 a 30 minutos para as principais refeições.

Essas ações ajudam o cérebro a reconhecer melhor os sinais de fome e saciedade, quebrando o ciclo de comer rápido e comer em excesso.

Comer devagar não é dieta, é reconexão com o corpo

Ao contrário do que muitos pensam, comer devagar não é uma dieta ou uma regra restritiva, mas uma forma de reaprender a ouvir o próprio corpo. Quando a refeição é feita com atenção, o prazer ao comer aumenta e a necessidade de repetir diminui naturalmente.

A alimentação deixa de ser um ato automático e passa a ser consciente. Essa mudança contribui não apenas para o controle do peso, mas também para a redução do estresse, melhora da digestão e construção de uma relação mais saudável com a comida.

Desacelerar o ritmo das refeições é, portanto, um gesto simples de autocuidado. É permitir que corpo e cérebro trabalhem em sintonia, respeitando os próprios limites e recuperando o equilíbrio perdido pela pressa do cotidiano.

Leia também: Como organizar uma geladeira saudável e prática para o dia a dia

Perguntas e respostas

1. Por que comer rápido faz com que se coma mais?

Porque o cérebro leva cerca de 20 minutos para perceber a saciedade. Quando a refeição é muito rápida, esse sinal chega tarde e o corpo acaba consumindo mais do que precisa.

2. Comer rápido pode causar obesidade?

Sim. Esse hábito favorece o consumo excessivo de calorias, altera hormônios do apetite e aumenta o risco de acúmulo de gordura corporal ao longo do tempo.

3. Comer rápido pode causar problemas digestivos?

Sim. Pode provocar distensão abdominal, azia, refluxo, gases e sensação de peso no estômago.

4. Quanto tempo o corpo leva para perceber que está satisfeito?

Em média, cerca de 20 minutos após o início da refeição, por isso comer com calma é fundamental.

5. Comer devagar realmente ajuda a emagrecer?

Ajuda, sim. Ao reduzir a ingestão calórica e melhorar a regulação hormonal, o hábito contribui para o controle do peso de forma natural.

6. Qual o primeiro passo para mudar esse hábito?

Criar pequenas pausas durante a refeição, mastigar mais vezes cada alimento e evitar distrações já ajudam o corpo a se reprogramar.

Veja mais: Gorduras boas: como incluir na dieta de quem treina?

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Escrito por Dra. Juliana Soares

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