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DOENÇAS & CONDIÇÕES

O que é febre reumática? Cardiologista explica os sintomas, tratamentos e se tem cura

A doença pode provocar inflamação em vários órgãos ao mesmo tempo, desde o coração até as articulações.

Dra. Juliana Soares

Dra. Juliana Soares

5min • 14 de jan. de 2026

Termômetro indicando febre em paciente acamado, representando infecção viral associada ao risco de complicações cardíacas como endocardite e infarto

Quando a infecção não recebe tratamento correto com antibióticos, o organismo pode reagir de forma inadequada e passar a atacar partes do próprio corpo | Foto: Freepik

Comum em crianças e adolescentes, a amigdalite bacteriana é uma infecção de garganta causada pela bactéria Streptococcus do grupo A, sendo transmitida através de gotículas respiratórias, como tosse e espirro, compartilhamento de alimentos e bebidas, além do contato com superfícies contaminadas.

Como os sintomas tendem a melhorar em poucos dias, é frequente que a infecção seja tratada apenas com remédios para dor e febre. Porém, sem o uso adequado de antibióticos, a bactéria não é completamente eliminada do organismo e pode causar complicações sérias, como a febre reumática.

Conversamos com a cardiologista Juliana Soares para entender como a complicação se manifesta, as formas de tratamento e as principais medidas para prevenir. Confira!

O que é febre reumática?

A febre reumática aguda (FRA) é uma doença inflamatória autoimune que surge como complicação de uma infecção de garganta (como a amigdalite bacteriana) causada por uma bactéria chamada Streptococcus do grupo A, conhecida como estreptococo.

De acordo com Juliana, quando a infecção não recebe tratamento correto com antibióticos, o organismo pode reagir de forma inadequada e passar a atacar partes do próprio corpo, principalmente o coração, as articulações, a pele e o sistema nervoso.

Vale ressaltar que ela não é uma infecção que atinge diretamente o coração. Ela se desenvolve porque o sistema imunológico, ao tentar eliminar a bactéria da garganta, produz anticorpos que confundem estruturas do próprio organismo com o microrganismo — o que é conhecido como mimetismo molecular.

Como consequência, ocorre a inflamação em tecidos saudáveis, principalmente nas válvulas do coração, podendo causar lesões permanentes.

Qualquer criança que tem infecção de garganta pode ter febre reumática?

A resposta é não. Segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia, apenas algumas pessoas têm predisposição para desenvolver a doença.

Muitas crianças apresentem infecções de garganta com frequência, especialmente nos primeiros anos de vida, mas isso, por si só, não significa que irão desenvolver febre reumática.

Para que a doença apareça, é necessário existir uma predisposição, que é herdada dos pais e já está presente desde o nascimento da criança.

Segundo Juliana, a doença acomete principalmente crianças e adolescentes na faixa etária dos 5 aos 15 anos de idade. Ela é mais rara em adultos e também em crianças muito pequenas, menores de 3 anos.

Quais os sintomas da febre reumática?

A febre reumática costuma aparecer semanas depois da dor de garganta, quando a infecção já até melhorou. Os principais sintomas incluem:

  • Febre;
  • Dores e inchaço nas articulações;
  • Cansaço;
  • Dor no peito;
  • Falta de ar;
  • Batimentos irregulares;
  • Movimentos involuntários do corpo;
  • Manchas ou caroços na pele.

Vale destacar que nem todos os sintomas aparecem juntos. Algumas pessoas só percebem quando o coração já está comprometido.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico da febre reumática é feito por uma combinação de avaliação clínica e exames, com base nos critérios diagnósticos conhecidos como critérios de Jones, conforme explica Juliana.

A cardiologista explica que eles consideram sinais e sintomas da doença, como comprometimento do coração, presença de sopro cardíaco, artrite, coreia, nódulos subcutâneos e eritema marginado.

Além da avaliação clínica, alguns exames ajudam a confirmar o diagnóstico e a avaliar a gravidade da doença, como:

  • VHS e PCR, que indicam a presença de inflamação no organismo;
  • ASLO (antiestreptolisina O), que mostra se houve infecção recente pelo estreptococo;
  • Ecocardiograma, usado para avaliar se existem lesões nas válvulas do coração.

A presença da bactéria não é obrigatória para fechar o diagnóstico, mas os exames ajudam a confirmar a infecção prévia e a identificar possíveis complicações no coração.

Tratamentos da febre reumática

O tratamento da febre reumática envolve controlar a inflamação, aliviar os sintomas e, principalmente, evitar danos permanentes ao coração.

Primeiro de tudo, é necessário eliminar a bactéria estreptococo do organismo, mesmo quando a dor de garganta já desapareceu.

Para isso, são utilizados antibióticos, principalmente a penicilina benzatina (benzetacil), aplicada por injeção. Em pessoas alérgicas à penicilina, podem ser usados antibióticos por via oral.

Para controlar a inflamação e a dor, são usados remédios anti-inflamatórios, como o ácido acetilsalicílico ou outros anti-inflamatórios. Em casos com comprometimento cardíaco mais importante, o médico pode indicar corticoides para reduzir a inflamação do coração.

Juliana ainda ressalta que uma parte fundamental do tratamento é a prevenção secundária. Quem já teve febre reumática apresenta alto risco de desenvolver novas crises após outra infecção de garganta pelo estreptococo.

Por isso, é indicado o uso regular de antibiótico por longo período, normalmente a penicilina benzatina aplicada a cada 21 ou 28 dias.

Febre reumática tem cura?

A febre reumática pode ser controlada e, em muitos casos, os sintomas desaparecem completamente com o tratamento correto. Portanto, a doença em si pode ser considerada curável quando o quadro inflamatório é tratado de forma adequada e não ocorrem novos surtos.

Porém, quando há comprometimento do coração, especialmente das válvulas cardíacas, as lesões podem ser permanentes. A inflamação pode cicatrizar deixando as válvulas deformadas, o que pode causar problemas cardíacos ao longo da vida, como sopros, insuficiência cardíaca ou necessidade de cirurgia no futuro.

Por que a febre reumática é tão perigosa?

A febre reumática é perigosa porque pode causar danos que acompanham a pessoa por toda a vida, principalmente no coração. Entre os riscos, é possível destacar:

  • Lesões nas válvulas do coração, que podem ficar deformadas e não funcionar corretamente;
  • Dificuldade na circulação do sangue, levando a cansaço, falta de ar e inchaço;
  • Risco de insuficiência cardíaca, quando o coração não consegue bombear sangue de forma eficiente;
  • Possibilidade de novos surtos, já que cada nova infecção de garganta pelo estreptococo pode reativar a doença;
  • Agravamento progressivo das lesões cardíacas, pois cada crise pode danificar ainda mais as válvulas.

Além do coração, a febre reumática também pode causar dor intensa nas articulações, alterações na pele e movimentos involuntários, o que prejudica a qualidade de vida. Sem tratamento e acompanhamento adequados, a doença pode evoluir para complicações graves.

A febre reumática pode ser evitada?

A prevenção da febre reumática depende principalmente do cuidado correto com as infecções de garganta, segundo Juliana. As principais medidas incluem:

  • Procurar atendimento médico sempre que houver dor de garganta acompanhada de febre, pus nas amígdalas ou ínguas no pescoço;
  • Realizar o tratamento com antibiótico quando houver indicação médica para infecção por estreptococo;
  • Usar o antibiótico pelo tempo completo, mesmo quando os sintomas melhorarem antes do fim do tratamento;
  • Não interromper o tratamento por conta própria;
  • Manter boa higiene, como lavar as mãos com frequência e evitar contato próximo com pessoas com infecção de garganta;
  • Evitar ambientes muito fechados e com aglomeração, que facilitam a transmissão da bactéria;
  • Manter acompanhamento médico em crianças e adolescentes com infecções de garganta frequentes.

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Perguntas frequentes

1. A febre reumática ainda é comum hoje em dia?

Isso depende muito do acesso ao tratamento da infecção de garganta. Em países mais desenvolvidos, a febre reumática é rara, porque as pessoas conseguem atendimento médico e antibióticos com rapidez.

No Brasil e em outros países em desenvolvimento, a doença ainda aparece com frequência. Muitas vezes, a pessoa não consegue atendimento a tempo, não inicia o antibiótico corretamente ou interrompe o tratamento antes do fim, o que aumenta o risco de desenvolver febre reumática.

2. Quanto tempo depois da infecção aparecem os sintomas?

Os sintomas da febre reumática costumam surgir de uma a três semanas depois da infecção de garganta. Nesse período, a dor na garganta já pode ter sumido, o que faz muita gente nem desconfiar da relação. Mesmo sem dor na garganta, a inflamação já está acontecendo dentro do corpo.

3. Por que o coração é o órgão mais afetado?

As válvulas cardíacas possuem proteínas muito parecidas com as do estreptococo. Por causa disso, os anticorpos produzidos contra a bactéria também atacam essas estruturas, provocando inflamação e cicatrização. O processo pode comprometer o funcionamento do coração de forma permanente.

4. A febre reumática pode matar?

Em casos graves, principalmente quando há comprometimento intenso do coração, a doença pode levar a insuficiência cardíaca, arritmias e outras complicações que colocam a vida em risco.

5. A febre reumática passa de uma pessoa para outra?

A febre reumática não é contagiosa, mas a bactéria da garganta é. Por isso, uma criança infectada pode transmitir o estreptococo para outra, que pode desenvolver a doença se não houver tratamento.

6. A febre reumática pode causar necessidade de cirurgia no coração?

Em casos graves, sim. Quando as válvulas ficam muito deformadas, pode ser necessário realizar cirurgia para corrigir ou trocar a válvula afetada.

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Escrito por Dra. Juliana Soares

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