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PREVENÇÃO & LONGEVIDADE

Coração e calor: cuidados em dias muito quentes 

As altas temperaturas exigem mais do coração e aumentam o risco de infarto e arritmias

Dra. Juliana Soares

Dra. Juliana Soares

5min • 24 de dez. de 2025

Homem idoso se refresca com uma garrafa de água durante um dia de calor intenso

O calor intenso faz o coração trabalhar mais para resfriar o corpo e pode desencadear arritmias, desidratação e aumento da pressão arterial, especialmente em idosos e pessoas com doenças cardíacas | Foto: Freepik

O impacto do calor na saúde não se restringe ao desconforto térmico: o corpo humano, especialmente o coração, precisa se adaptar a condições que testam seus limites fisiológicos. Em dias muito quentes, o esforço para manter a temperatura corporal estável aumenta significativamente, o que pode agravar doenças cardíacas preexistentes e elevar o risco de infartos e arritmias.

Pesquisas mostram que a exposição prolongada ao calor pode alterar a pressão arterial, provocar desidratação e comprometer o fluxo sanguíneo, levando a sobrecarga do sistema cardiovascular. Entender esses mecanismos é essencial para orientar cuidados preventivos e reduzir o número de complicações em períodos de temperaturas extremas.

Como o calor afeta o coração

Durante os períodos de calor intenso e dias muito quentes, o organismo precisa dissipar calor para manter a temperatura corporal estável em torno de 36,5 °C. Esse processo envolve a vasodilatação periférica, ou seja, o relaxamento dos vasos sanguíneos próximos à pele, que aumenta o fluxo de sangue para a superfície corporal, e a sudorese, mecanismo que permite a liberação de calor pelo suor.

Essas respostas naturais exigem que o coração trabalhe mais, aumentando a frequência e a força das contrações para manter a pressão arterial e a oxigenação adequadas. Em pessoas com doenças cardiovasculares, esse esforço adicional pode agravar sintomas e elevar o risco de eventos como infarto, insuficiência cardíaca, arritmias e AVC.

Dias muito quentes também afetam o equilíbrio de sódio, potássio e outros eletrólitos, podendo causar fadiga, tonturas, cãibras, queda de pressão e desmaios. Em quadros mais graves, a desidratação e o espessamento do sangue favorecem a formação de coágulos, que comprometem a circulação e aumentam a probabilidade de episódios de trombose e isquemia cardíaca.

Idosos, pessoas com doenças cardíacas pré-existentes e indivíduos que utilizam medicamentos para pressão ou diuréticos estão entre os grupos mais vulneráveis, especialmente durante ondas de calor prolongadas.

Ondas de calor e risco cardiovascular

Ondas de calor aumentam em até 11,7% o risco de mortalidade cardiovascular, especialmente quando os episódios duram vários dias consecutivos. Isso acontece porque o calor extremo provoca uma “cascata fisiológica”.

A perda de líquidos e sais minerais reduz o volume de sangue circulante e eleva a frequência cardíaca. Simultaneamente, a vasodilatação periférica diminui a pressão arterial e compromete a irrigação de órgãos vitais, incluindo o coração e o cérebro. Em pessoas com insuficiência cardíaca, esse desequilíbrio pode gerar acúmulo de fluidos, cansaço e edema.

A combinação de dias muito quentes e baixa qualidade do ar, comum em períodos de calor e poluição, aumenta ainda mais o risco de infarto, arritmias e acidente vascular cerebral. A exposição a partículas finas (PM2.5) e ozônio agrava o estresse oxidativo e a inflamação nas artérias, ampliando os danos cardiovasculares.

Quem corre mais risco

As evidências científicas apontam que o calor não afeta todas as pessoas da mesma forma. Os idosos estão entre os grupos mais vulneráveis, pois apresentam menor capacidade de transpiração e menor resposta do sistema circulatório à elevação térmica.

Outros grupos de risco incluem:

  • Pessoas com doenças cardíacas, pulmonares, renais ou diabetes, cujos sistemas já operam sob sobrecarga
  • Pacientes em uso de diuréticos, betabloqueadores ou anti-hipertensivos, que podem alterar a capacidade do corpo de eliminar calor e manter o equilíbrio de fluidos
  • Trabalhadores expostos ao sol ou a ambientes quentes, como motoristas, operários e agricultores
  • Populações de baixa renda, com acesso limitado a ar-condicionado ou moradias adequadas para enfrentar o calor extremo

Dados mostram que, durante dias muito quentes e picos de temperatura, a desidratação e o esforço físico excessivo são os principais gatilhos de eventos cardíacos. A recomendação para a população geral, mas principalmente para grupos de risco, é manter uma boa hidratação, vestir roupas leves e evitar exposição solar direta entre 11 h e 15 h.

Sintomas de alerta e primeiros cuidados

A descompensação cardiovascular por calor pode se manifestar de forma gradual. Cansaço intenso, tontura, batimentos acelerados, câimbras, pele fria ou úmida e inchaço nos tornozelos são sinais de que o corpo está sobrecarregado. Em casos mais graves, surge a insolação, caracterizada por febre alta, confusão mental, falta de ar e náusea, situações que exigem atendimento médico imediato.

Em qualquer sintoma de mal-estar associado ao calor, as recomendações médicas incluem:

  • Mudar-se para um local fresco e ventilado
  • Deitar-se com as pernas elevadas
  • Repor líquidos com água ou bebidas isotônicas
  • Resfriar o corpo com toalhas úmidas, borrifador ou compressas frias no pescoço e axilas

Essas medidas ajudam a restaurar o equilíbrio térmico e cardiovascular, reduzindo o risco de complicações graves em dias muito quentes.

Estratégias para proteger o coração em dias quentes

A prevenção é a principal arma contra os efeitos do calor no sistema cardiovascular. O indicado é o desenvolvimento de um plano pessoal de ação para o calor, que inclua monitoramento das previsões de temperatura e da qualidade do ar, revisão de medicamentos sensíveis ao calor e definição de estratégias de resfriamento.

Entre as medidas mais eficazes em dias muito quentes estão:

  • Manter hidratação constante, mesmo sem sede
  • Preferir locais sombreados e bem ventilados
  • Evitar exercícios intensos durante as horas mais quentes do dia
  • Usar roupas leves e de cores claras
  • Aplicar protetor solar com fator de proteção mínimo 30
  • Verificar a validade e o armazenamento de medicamentos, já que muitos perdem estabilidade sob altas temperaturas
  • Consultar regularmente o médico em caso de insuficiência cardíaca, pressão descontrolada ou uso de diuréticos

Pesquisas ainda mostram que o uso de ventiladores pode ser ineficaz quando a temperatura supera 33 °C, pois o ar quente apenas circula, sem resfriar o corpo. O ar-condicionado, quando disponível, é mais seguro; na ausência dele, a orientação é buscar centros públicos de resfriamento.

Um futuro mais quente exige novos cuidados

Com as mudanças climáticas e o envelhecimento da população, o calor passou a representar um desafio de saúde pública. Organizações internacionais de saúde alertam que os episódios de calor extremo tendem a se tornar mais frequentes e prolongados, exigindo estratégias de adaptação baseadas em evidências.

Promover moradias ventiladas, arborização urbana e acesso à água potável são medidas tão importantes quanto campanhas educativas sobre hidratação e controle de esforço físico. O objetivo é reduzir a carga de doenças cardiovasculares agravadas pelo aumento da temperatura global.

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Perguntas e respostas

1. Por que o calor intenso exige mais do coração?

Porque o organismo precisa direcionar mais sangue para a pele e liberar calor por meio do suor. Isso eleva a frequência cardíaca e a carga de trabalho do coração, especialmente em pessoas com doenças cardiovasculares.

2. Quais problemas cardíacos podem ser agravados em dias muito quentes?

As altas temperaturas podem aumentar o risco de infarto, arritmias, insuficiência cardíaca e pressão baixa, além de causar descompensações em pessoas que já têm doenças cardíacas.

3. A desidratação tem relação direta com o risco cardiovascular?

Sim. A perda de líquidos e sais minerais diminui o volume de sangue circulante e torna o sangue mais espesso, o que sobrecarrega o coração e pode favorecer coágulos.

4. Por que idosos e pessoas com doenças crônicas são mais vulneráveis?

Porque o corpo dessas pessoas transpira menos e tem menor capacidade de ajustar a pressão e o fluxo sanguíneo sob calor intenso, o que reduz a eficiência do resfriamento corporal.

5. A poluição piora os efeitos do calor sobre o coração?

Sim. A combinação de calor extremo e poluentes, como partículas finas e ozônio, intensifica a inflamação das artérias e aumenta o risco de eventos cardíacos.

6. Quais sinais indicam que o calor está afetando o coração?

Tontura, fraqueza, palpitações, câimbras, suor frio e confusão mental podem indicar sobrecarga térmica e cardiovascular. É importante interromper a atividade, buscar sombra e hidratar-se.

7. Como proteger o coração em períodos de altas temperaturas?

Evite se expor ao sol entre 11 h e 15 h, mantenha boa hidratação, use roupas leves, faça pausas em locais frescos e monitore sintomas como batimentos acelerados ou falta de ar.

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Escrito por Dra. Juliana Soares

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